Artes

PANORÂMICA DAS EXIBIÇÕES CINEMATOGRÁFICAS EM UM FIM DE SEMANA NA GRANDE SÃO PAULO

No dia 21 de Agosto de 2.011 estavam em cartaz nos salas de cinemas comerciais da capital de São Paulo e cidades da vizinhança (Mogi das Cruzes, Suzano, Osasco, Guarulhos) as películas listadas abaixo – (As produções estrangeiras estão identificadas pelos títulos com os quais lançados no Brasil):

ESTADOS UNIDOS: – Quantidade de salas que os exibiam

1) Os Smurfs – 84

2) Lanterna Verde – 54

3) Super 8 – 49

4) Capitão América – O Primeiro Vingador – 44

5) Professora sem Classe – 38

6) Quero Matar Meu Chefe – 25

7) Harry Poter e as Criaturas da Noite – 21

8) A Árvore da Vida – 14

9) Dylan Dog e as Criaturas da Noite – 12

10) Meia Noite em Paris – 5

11) Os Pingüins do Papai – 4

12) Amor a Toda Prova – 4

13) Carros 2 – 3

14) Namorados Para Sempre – 1

15)Rio – 1

Total:…………………………………………………….. 359 salas

BRASIL:

1) Onde Está a Felicidade – 41

2) Assalto ao Banco Central – 35

3) Cilada.com – 22

4) Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo – 5

5) Ex Isto – 3

6) O Homem do Futuro – 2

7) Solidão e Fé – 2

8) A Alegria – 1

9) As Doze Estrelas – 1

10) Quebrando o Tabú – 1

11) Transeunte – 1

Total:……………………………………………………. 114 salas

FRANÇA:

1) Esses Amores – 2

2) Potiche – Esposa Troféu – 2

3) Gainsbourg – 1

4) Homens e Deuses – 1

5) O Louco Amor de Yvens Saint-Laurent – 1

6) Mamute – 1

7) Minhas Tardes com Marguerite – 1

8) O Seqüestro de um Herói – 1

Total:…………………………………………………… 10 salas

DINAMARCA:

1) Melancolia – 7

2) Tudo Ficará Bem – 1

Total:………………………………………………… 8 salas

ITÁLIA:

1) Um Sonho de Amor – 5

2) Saturno em Oposição – 1

Total:………………………………………………….. 6 salas

ESPANHA:

1) Balada do Amor e do Ódio……………………………… 1 sala

REINO UNIDO:

1) Gnomeu e Julieta…………………………………………… 1 sala

Surpreende o ressurreto cinema brasileiro, tanto pela quantidade de obras em cartaz no circuito comercial quanto pela quantidade de salas que ousaram programar nossas produções.

Explica-se: o cinema brasileiro, além de ter perdido a medida protecionista que vigorava pelos anos 1.980, que garantia a obrigatoriedade de exibição, em todas as salas, de títulos nacionais em mais de 170 dias por ano, praticamente teve seu fim decretado pelo Presidente Collor quando, em seu curto governo no início da década de 1.990, extinguiu a Embrafilme, a estatal do cinema.

Até então, a indústria brasileira da sétima arte navegava de forma um tanto capenga, dividida entre as produções bancadas pela estatal, cujos critérios de concessão de verbas de produção, as quais iam principalmente a determinados grupos, deixavam, com razão, diga-se de passagem, muita margem a questionamentos, e as produções dos circuitos independentes que existiam em São Paulo (aqui, principalmente na chamada boca do lixo), Rio de Janeiro, e algumas manifestações no Rio Grande do Sul e em algumas capitais do Nordeste brasileiro.

Portanto, termos num fim de semana na metrópole paulista 11 produções nacionais em exibição em 114 salas do circuito comercial é algo que realmente surpreende e chega a emocionar , principalmente por que um deles está tendo bilheteria muito acima da média.

Por que não devemos nos ufanar:

1) Meu levantamento acima, elaborado a partir da sessão “filmes” da publicação “Revista da Folha”, encarte do jornal “Folha de São Paulo”, edição do dia 21 de Agosto, não levou em conta a quantidade de sessões que cada sala reservou para exibição das películas. Somente para ter-se uma idéia, filmes como o “Lanterna Verde” e “Os Smurfs” passam pelo menos em 5 horários por dia, em cada sala, enquanto que nossos “Assalto ao Banco Central” e “Cilada.com”, só ocupam mais de 2 horários em pouquíssimas salas.

2) Em média, um filme brasileiro não fica mais do que duas semanas em cartaz em todo o circuito, à exceção hoje dos mesmos dois heróis, o “Assalto” e o “Cilada”.

3) O público brasileiro, que ficou desacostumado de consumir massivamente o produto nacional, seja pelo sumiço de produções nacionais em exibição comercial por mais de 10 ou quinze anos, seja pela verdadeira lavagem cerebral imposta de há muito pelas distribuidoras dos produtos norte-americanos, embora tenha prestigiado nos últimos 5 anos as grandes produções brasileiras (vide “Cidade de Deus”,”Carandiru”, “Verônica”,”Tropa de Elite I e II”, “Se eu Fosse Você I e II”, “Mulher Invisível”, “Divã”,”Salve Geral” e muitos outros, na verdade ainda alimenta certo preconceito em relação a nossas obras. Diz-se que temos vergonha de ver a nossa cara na telona, preferindo engolir aberrações como um homem morcego ou um homem aranha, ou até os improváveis carros que se transformam em gigantes inteligentes, sentimentais e falantes, mas em defesa, prefiro adicionar outros fatores, como uma certa visão doentia de alguns produtores, que tendem a valorizar em suas obras a pobreza, a bandidagem, o feio, o grotesco e repugnate, o sinistro. Ou então o cara de vida mansa na praia, que só sabe pegar a mulherada. O Brasil não é só favela e bandidagem, ou só o malandro de praia. Tem muita coisa boa acontecendo aqui ou já acontecida para ser contada em forma de filmes, temos muita coisa bonita para ser mostrada, e muita estória divertida e saudável para ser apresentada na forma da linguagem inspiradora da invenção dos Lumière. Também, falta algum tino mais comercial a boa parte dos produtores: salvo os grandes sucessos mencionados acima, nas produções menos votadas os roteiros muitas vezes são meio irregulares e mal elaborados, freqüentemente os “astros” são ilustres desconhecidos, muitas vezes, parentes e conhecidos do diretor-produtor-roteirista, não raras vezes, um auto-proclamado intelectual e gênio incompreendido e injustiçado pelas elites burguesas. Não vamos nos esquecer que as ações de promoção dos filmes são normalmente mal-elaboradas, tímidas, quando não inexistentes.

Porém, já se observa a formação de um público certo e costumeiro para nossas obras. (Fui tentar assistir ao “Cilada.com” numa sala num Shopping Center, uma semana após seu lançamento, e desisti, pois era tanta gente na fila que ela praticamente dava a volta no quarteirão. Poucas semanas depois, ocorreu o mesmo com minha tentativa com o filme do assalto, em outro shopping: desisti ao ver a fila, enorme). Gostei de ver.

Quanto às produções de outros países, nos entristece a ausência de obras de outros centros culturais de um mundo tão rico em manifestações, como obras dos nossos vizinhos latino-americanos, ou oriundas de países do leste europeu, e da África, justo aqui, uma das maiores cidades do planeta. As produções francesas que listei são apresentadas costumeiramente em dois locais específicos da cidade, os tradicionais Reserva Cultural e Espaço Unibanco de Cinema que, embora comerciais, têm programado filmes de aspecto mais cultural. Não mencionei também a mostra de filmes japoneses, tampouco uma mostra de filmes do astro mexicano Cantinflas, pois não estão sendo exibidos em circuitos comerciais, senão em espaços culturais (Centro Cultural Banco do Brasil e Espaço Cinemateca BNDES).

Parece que está instalada uma polaridade entre os norte-americanos e o Brasil, o que, sem dúvida, empobrece.

Wagner Woelke

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *