Humanidades

A PERCEPÇÃO DE DEUS

Confesso que ouvir de você a suspeita de que DEUS, por hipótese, estivesse morto me deixou surpreso/preocupado. Sei que você sabe que DEUS não está morto. Resisti à tentação de uma resposta simplista e objetiva, a de que se eu e você e tudo o que há existe, então DEUS está vivo. Ontem estive em Bertioga, num daqueles passeios onde você sente satisfação em tempo integral. Enquanto esperava a porção de camarão tostado da barraca, fiquei olhando as ondas quebrarem na rebentação da praia. O mar estava agitado, com uma meia ressaca, e de vez em quando as águas avançavam muito além da área onde ocorria a rebentação, surpreendendo a todos, muitas vezes pela força com que passava por nós, na altura do tornozelo. Acariciava-me os pés na sua passagem de ida e volta. Fiquei umas duas horas sentado ali, numa cadeira de praia, embaixo de um guarda-sol, observando aquela potencia toda. O céu estava ora azul, daquela azul que é uma pintura de lindo, ora tomado pelas nuvens cinzas, escondendo o Sol, para logo em seguida se abrir e descortinar novamente o infinito e eterno azul. Sei que parece azul por conta da percepção, que meus olhos, janela para o Universo, me revelam. Não ventava muito forte, nem o Sol, quando aparecia, se fazia avassalador e insuportável, mas até ele acariciava a pele do rosto, e minha acompanhante colocou a face para cima, com os olhos fechados e o rosto num leve sorriso, para ter as bochechas acariciadas pelo suave calor. O mesmo com a brisa suave. Dentro do mar, uns trezentos metros para dentro, as águas revoltas se contorciam, e sua superfície serpenteava, deslocando um volume que, segundo pensei, devia ser considerável, e parecia se elevar a vários metros de altura em relação a onde estávamos, como se embaixo dela houvesse uma grande animal, uma serpente gigantesca se mexendo e causando o rebuliço na superfície. Estava numa ponta da praia, que se estendia para a minha direita por quilômetros, e as ondas quebravam com estrondo, levantando uma cortina branca que embaçava a imagem das coisas longínquas. Longe, olhando em frente, umas lanchas volta e meia cruzavam o caminho, ora indo para alto mar, ora retornando, subindo e descendo aquelas pequenas montanhas de água. Mais longe ainda, a linha do horizonte revelava uma bela fisionomia plana, azulada, esverdeada, que minha percepção reputava por infinita. Eu sei, era um espetáculo da grandeza de DEUS. Passou um cachorro enorme, com uma pessoa. A expressão da cara do cachorro era de alegria e felicidade, e ele realmente puxava e conduzia um homem, um tanto gordo, ao longo da praia, e era altamente perceptível o bem estar e a satisfação do animal por caminhar por ali. Fiquei pensando se ele distinguia e percebia a beleza da espuma que subia das ondas. Tentei falar com minha colega que aquelas ondas quebravam ali naquele ponto, com aquela força e exibindo aquele espetáculo provavelmente há milhões de anos não para ser admirado por alguém, como eu e certamente outras pessoas que também olhavam de algum outro ponto as mesmas manifestações, porém o pensamente dela não estava nesta sintonia, e riu-se das minhas preocupações filosóficas. Deixei para lá. Só continuei a registrar na minha mente aquela força, e tentava também com meu pensamento captar aquela energia toda, e registra-la e decodifica-la. De vez em quando, olhava para traz, em direção ao paredão da serra, a muralha que se elevava gigantesca a uns quinze quilômetros. Descer a serra sempre é um espetáculo deslumbrante, e a visão da grandiosidade das pedras, das cachoeiras, das águas límpidas que descem escandalosas e barulhentas pelas encostas, às 7 da manhã, o dia nascendo, eleva o espírito humano, e pessoas como eu devolvem seu entusiasmo e estado de êxtase na forma de um silêncio de respeito. O camarão chegou, porção generosa, empanado, quentinho, estalando, e seu sabor e o da cebola que o acompanhava, mais o molho tártaro misturado com molho de tomate, sabor de sonho, coroado por goles de suco de abacaxi, cremoso, feito com água mas com sabor acentuado de leite condensado. A degustação destas simples delícias, para mim de sabor fantástico enlevou mais ainda minha perplexidade. É DEUS se doando aqui, pensei. Olhei para os lados, somente eu a minha companheira degustávamos camarão tostado com cebola e molho, empurrado por aquela delícia de suco de abacaxi. As demais pessoas faziam outras coisas, as crianças rolavam na água rasa, mas todos recebiam. Recebiam alguma coisa, pois percebi que mesmo as mais discretas como eu expressões confiantes e de bem estar. DEUS se doava, se dava abertamente a cada um ali, do jeito que a pessoa quisesse perceber e receber. É DEUS presente. Fritjof e Steindl-Rast falam em “Pertencendo ao Universo” sobre Revelação, e que “a revelação de DEUS, o irromper da realidade divina na nossa realidade cotidiana, é algo que prossegue continuamente.” Dizem mais: “A realidade se doa, se desvela para nós, deliberadamente. E ficamos apavorados em essa doação. Ela ESTÁ DISPONÍVEL A TODOS, A CADA SER HUMANO. É este o ponto principal: o mundo se dá a nós. Ele se dá livremente a nós; BASTA QUE O PERMITAMOS. Ele nos inunda de dádivas”. Hoje, domingo no centro velho de São Paulo, saí por volta das onze horas de meu apartamento para tomar minha vitamina numa lanchonete especializada na Praça da República, uma “bomba” energética com açaí, leite, amendoim, nó de cachorro, catuaba, marapuama, e outros quesitos mais, e as multidões tomavam a Avenida Ipiranga, a Avenida São Luiz, a Avenida São João, a Praça Júlio Mesquita, e se moviam também em ondas humanas, intermináveis, algumas vindo, outras indo, caminhando de forma mais ou menos ordenada e organizada. Explica-se: a tal da Virada Cultural promoveu dezenas de atrações artísticas para todos os gostos, simultâneas, e os grupos de anônimos se formavam espontaneamente, e iam e vinham de palcos gigantescos montados em vários pontos. Demorei-me um pouco a ver o Zeca Baleiro na Praça Julio de Mesquita, e a multidão se acotovelava em frente ao outrora tragicamente conhecido e agora anônimo Edifício Andraus, batendo palmas e dançando ao ritmo da poderosa batida. Eram muitos jovens. Mas muitos jovens mesmo, bota gente jovem nisso, o sorriso e ar de felicidade era exalado de forma suave pelas recém saídas da puberdade garotas, pele lisa, olhares tranqüilos, expressões felizes, vestidas em suas blusinhas leves e suas calças jeans, aqui e ali apenas um ou outro jovem exibia um comportamento mais ousado na forma de um penteado mais radical e um ”piercing” colocado nos lábios, dando uma sensação estranha em que vê. Gentarada linda! Fui atraído pela batida a dois quarteirões dali, e senti no peito e nos pulmões, literalmente, o poder da vibração sonora. O som muito amplificado da bateria do conjunto causava reações no meu corpo, enquanto o Silvio Brito cantava, poderosamente, no Largo do Arouche: “Tá todo mundo loco, oba, tá todo mundo loco, oba, tá todo mundo loco, oba, dingdingdim, din din!” (Pensei nas ondas discretas de nossos pensamentos, se dispersando no Universo, no plasma. Rsrs). As multidões reagima e várias pessoas se contagiavam com aquela vibração toda, e aquilo se traduzia em rostos sorridentes e movimentos rítmicos dos braços e das pernas e olhares complacentes para o palco e para seus vizinhos. Saí dali, depois de considerar se esperava pelo show do Odair José que começaria em seguida, às 13 e trinta. Não fiquei pois já me julgava com inspiração suficiente para lhe escrever. Caminhei apressadamente em direção ao meu prédio, aproveitando para passar pela Praça da República, onde outra orda balançava e se espremia, de forma “light”, para ouvir os belos e afinados acordes das guitarras de outro grupo. No geral, o astral e o clima era muito positivo e gostoso, e as pessoas pareciam envolvidas em alguma coisa boa. Subindo a São Luis em direção à Consolação, não pude deixar de notar uma garota loura, vestindo um short jeans, sentada solitária numa pequena praça na esquina da Major Sertório. Passei por ela e, de relance, vi seu olhar perdido longe, e lhe percebi uma expressão chorosa na face, e também que havia uma lágrima parada próxima de suas narinas, no lado direito de seu rosto. Caminhei o resto dos 50 ou 70 metros que me separavam da portaria de meu edifício pensando nos possíveis motivos daquele choro. Lógico que pensei em várias hipóteses, apenas como exercício. Ocorreu-me de ir lá e lhe perguntar, pensando em talvez oferecer algum auxílio, mas não o fiz. Os primeiros carros da torcida do Corinthians já se iniciavam a passar, buzinando alto, ostentando enormes bandeiras do clube, pois o jogo começaria em menos de 2 horas próximo dali, no estádio do Pacaembu.

Não encontrei o seu texto, que eu havia lido na 6ª. feira, e o perdi em algum ponto entre São Paulo e a Riviera de São Lourenço, no litoral norte, na manhã de Sábado. Não pude, desta forma, linkar de forma muito adequada o meu texto com sua argumentação a respeito do ego humano, mas em relação a DEUS, isso dá para eu tentar falar. Há cerca de 15 anos, eu pregava no púlpito de uma comunidade evangélica em Mogi das Cruzes, e mencionei algo a respeito do DEUS VIVO, e me lembro de ter falado algo ao “DEUS que se importe, e faz alguma coisa em decorrência de nossas orações e busca por ele.”. Ou algo nesse sentido. Pude ver o brilho no rosto das pessoas que me assistiam, e o discreto movimento de concordância feito com as cabeças. Isto me deu a noção de que as pessoas faziam a distinção entre um DEUS que não responde, e um DEUS que responde, o tal “DEUS VIVO”, expressão muito usada no meio evangélico. No domingo passado, assisti a uma missa. O tema era a páscoa. Vi o padre entrar, atrasado, com alguma pompa cheio de roupagens diferentes, que denotavam luxo e, após as cantigas de um tradicional grupo de idosos, tomar o microfone, e falar palavras ditas mansamente, quase que inaudíveis pois que ele falava baixo e longe do microfone, com um olhar de enfado e perdido no fim da igreja, no alto. Seguíamos o missal, mas fui para perto de um alto falante para ver se distinguia os sons proferidos pelo sacerdote. Todas as intervenções do homem foram feitas propositalmente de forma ininteligível, mas ele não meconhece, não sabe com quem está lidando ( rsrs ): prestei atenção em cada coisa que ele falou, e percebi que ele falou, mecanicamente diga-se de passagem, por algumas vezes “a igreja”: “ “a igreja” – não se deu ao trabalho de complementar – “católica” – considerando, penso eu, que para eles, quando se fala de igreja, só se pode estar falando de uma. Bem, nem menção do significado da Páscoa, nem do DEUS VIVO. Não quero ser preconceituoso, mas ouso dizer que ali, naquele culto, verdadeiro sacrifício para os presentes, DEUS estava morto. (Esse pessoal anuncia que detêm direitos de exclusividade aqui na Terra com relação a DEUS.) Não que eu achasse que um culto de páscoa fosse absolutamente necessário e útil para alguma coisa. Cada vez mais me parece que a dimensão real daquilo que chamamos de DEUS está tão vastamente distante do que conhecemos dele, e dos termos que conseguimos usar para citá-lo e descrevê-lo, que estas manifestações humanas no sentido de se agruparem para busca-lo são mais toscos e tímidos rituais que servem mais como desculpas para nós mesmos, para nós mesmos nos dizermos uns aos outros que estamos buscando a face de DEUS. Parafraseando outras citações do mesmo livro, não feitas pelos debatedores, mas somente para ilustrar a noção humana equivocada, menciona aquela de que “DEUS fica sentado em algum lugar lá fora, e de vez em quando interfere com o mundo de uma maneira diferente.” Pelas pequenas coisas que descrevi acima, tentei demonstrar que DEUS se revela a nós o tempo todo, DEUS está próximo, faz parte de nossa experiência em tempo integral, e nEle vivemos. Como disse, repito a frase da dupla: “A revelação de DEUS, o irromper da realidade divina na nossa realidade cotidiana, é algo que prossegue continuamente. Tornando-nos mais receptivos com relação a ela, nós a recebemos”

A questão, portanto, é mais de capacidade de percepção do que da suposta ausência ou omissão de DEUS em várias questões nas quais ansiamos pela sua intervenção. As pessoas, mais ou menos despertas para as coisas de DEUS, querem envolvê-lo em questões específicas de seu dia-a-dia e, como não vêm sua pronta resposta da forma ou no tempo em que elas desejam, ficam com a impressão de que ele está “sentado em algum lugar lá fora, jogando dados, e de vez em quando resolve intervir aqui e ali, mas não sempre”, não se sabe bem porque. Alguns chegam até a duvidar de sua existência, muito embora vivam por ele, se movam por ele, e existam por ele. (rsrs). Já escrevi em outra carta que DEUS não percebe o mundo como nós percebemos, e adiciono a colocação do Thomas Matus, obra citada: “..tudo o que afirmamos a respeito de DEUS implica também a diferença infinita que há entre DEUS e tudo o que conhecemos ( ou que percebemos – inclusão minha ).

Bem, Patrícia, complemento que estes assuntos não são tratáveis com todos, e as pessoas, de um modo geral, parecem ter seu próprio rol de assuntos que lhe preencham as suas capacidades de se preocupar com o que quer que seja: uns, é o futebol, outras é o último modelo de celular ou o último recurso da informática, outro é a nova música deste cantor ou daquela dupla ou conjunto, ou a última palavra em termos de moda de roupas ou sapatos. Depois, quando acham que precisam de uma intervenção sobrenatural, talvez busquem a DEUS contaminados por estas premissas, algumas falsas ou mágicas ou pirotécnicas demais, e não obtém respostas dentro destas mesmas contaminadas expectativas, e ficam frustrados. Quanto a mim, continuo querendo entender a mente de DEUS, e ele me tem satisfeito, em doses mais do que suficientes para manter minha empolgação…

Wagner Woelke

A HIPNOSE HUMANA

Tenho procurado me aprimorar nesta consciência de que somos prisioneiros de uma ilusão, que nos é apresentada através de nossos sentidos (visão, olfato, tato, etc. ), e a essencia das coisas, que reflete a face e o caráter de “Deus”, se não nos libertamos e “acordamos”, esta nos passa desapercebida. Na verdade, não me expressei bem sobre isso acima. Vou desenvolver algo a respeito com calma. Por enquanto, gostaria de deixar algumas palavras da Helen Schucman, retiradas do prefácio do seu “Um Curso em Milagres”: “O mundo da percepção..se baseia em interpretação, não em fatos. É o mundo do nascimento e da morte, fundado sobre a crença na escassez, na perda, na separação e na morte. Ele é aprendido mais do que dado, seletivo nas ênfases que dá a percepção, instável em seu funcionamento e impreciso nas suas interpretações….Quando foste aprisionado no mundo da percepção, foste aprisionado num sonho. Não podes escapar sem ajuda, porque tudo o que os teus sentidos te mostram, apenas testemunha a realidade do sonho…o que a percepção vê e ouve parece ser real porque ela só permite que entre na consciência o que está de acordo com os desejos de quem está percebendo. Isso leva a um mundo de ilusões, um mundo que precisa de defesa constante, exatamente porque ele não é real.” Mas, pergunto-me: como e porque este mundo da imperfeição, da ilusão se instalou na nossa frente? Mais: como o mundo da imperfeição que eu vejo, é o mesmo mundo da imperfeição que você vê, e que o outro vê? Já entendi que Deus, ou a Mente Universal, ou a sabedoria cósmica, ou qualquer outro nome que se queira dar para designar este grande mentor de tudo o que há, ele á perfeição absoluta, a justeza mais justa, mas não me conformo de estarmos vivendo no meio da falta da justeza de Deus, e que nós somos os responsáveis por isso. Não tenho resposta para isso ainda. Talvez os comentário da Helen ajudem: “O mundo que nós vemos somente reflete nosso próprio referencial interno – as idéias dominantes, desejos e emoções de nossas mentes…Nós fazemos com que ele seja verdadeiro através de nossas interpretações do que estamos vendo. Se estamos usando a percepção para justificar nossos próprios erros – nossa raiva, nossos impulsos para atacar, nossa falta de amor em todas as formas que pode ter – veremos um mundo de maldade, destruição, malícia, inveja e desespero…” Pretendo discorrer mais sobre isso, deixa eu pensar…beijos…Wagner Woelke

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